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Padrões

A mais nobre aldeia de Portela do Fojo

 

Padrões

Situada no ponto mais a Sul do nosso concelho situa-se a aldeia de Padrões, dona e senhora, à escala local, de um rico património natural e arquitectónico. Um verdadeiro "diamante" à espera de ser polido. Convidamos, pois, todos a conhecê-la.

Toponímia

(imagem "PADRÃO_RECONSTITUÍDO" e/ou foto "PLACA_PADRÕES")

 

Comecemos pelo seu nome. O que encerra a palavra Padrões? O que terá levado nos nossos antepassados a "baptizá-la" com este nome?

A palavra "padrões" deriva do latim padrones ou petrones e designa "marcos de pedras altas e corpulentas". Ao ouvir falar em "padrões", o Leitor recordar-se-á certamente dos marcos de pedra, de grande dimensão, transportados pelos nossos marinheiros dos Descobrimentos, e que eram colocados nas terras então descobertas, designadamente na costa ocidental de África e no Brasil, como atestados de soberania do Reino de Portugal. Terão os mesmos alguma relação com esta pequena aldeia? A resposta poderá ser dada através da análise de dois documentos:

O primeiro encontramo-lo em "Nova Malta", de José Anastácio de Figueiredo, o qual afirma que "... a respeito do Lugar dos Padrões, (...) tendo onze vizinhos, sempre seis delles pertenceram ao Priorado do Crato, e cinco ao Bispado de Coimbra, e à freguezia de Alváres (...)". De facto, pouco antes da criação da Freguesia de Portela do Fojo em 1795, o território de Padrões pertencia a duas entidades distintas: ao Priorado do Crato (ou seja, à Ordem de Malta) e ao antigo Concelho de Alváres / Mosteiro de Folques (que até àquela data só tinha uma freguesia), sendo que o primeiro tinha jurisdição sobre seis vizinhos (aproximadamente 24 pessoas), ao passo que o segundo tinha jurisdição sobre cinco vizinhos (aproximadamente 20 pessoas).

O segundo documento é o Foral Manuelino de Alváres, outorgado em 1514, ao Mosteiro de Folques, o qual refere expressamente que "(...) e tem mais a ordem [o mosteiro de Folques] nesta terra huma terra foreira que chamam padrooens bem confromtada...".

Ora, ontem como hoje, sucediam por vezes conflitos de jurisdição e/ou de propriedade sobre determinada terra. Assim, as "fronteiras" ou limites entre freguesias e/ou concelhos eram frequentemente determinadas pela geografia do terreno, como por exemplo um rio, uma cordilheira, um viso, pois assim seriam facilmente perceptíveis. Mas da análise destes dois documentos parece concluir-se que o então lugar de Padrões era uma excepção, ou seja, a Ordem de Malta e o Concelho de Alváres / Mosteiro de Folques repartiam entre si aquele sítio, sem que houvesse uma fronteira natural. O rio Zêzere poderia ter servido de fronteira entre ambos, mas tal implicaria que a Ordem de Malta abdicasse dos terrenos da margem direita do rio, o que não seria, naturalmente, do seu interesse.

Assim, parecia não existir uma fronteira natural, mas existia uma demarcação clara, pois, no fundo, o que os documentos nos parecem transmitir é que "[a] terra (...) [a] q[ue] chamam padrões [é] bem conffrontada", até porque, "... [no] Lugar dos Padrões sempre seis (...) [vizinhos] pertenceram ao Priorado do Crato, e cinco [vizinhos] (...) à freguezia de Alváres (...)".

Perguntará agora o Leitor: e como era então essa fronteira? Ora, a resposta é dada pelo próprio nome da aldeia: pelos tais padrões, marcos ou "pedras altas e corpulentas", ou seja, os primeiros habitantes de Padrões, ao verem aqueles padrões de pedra a demarcarem o território, terão – em nossa humilde opinião – atribuído tal designação ao lugar.

Dizemos isto sem qualquer prova física da existência de tais padrões de pedra. Com efeito, até hoje nunca os encontrámos, embora as buscas não tenham sido exaustivas. Poder-se-á sempre conjecturar que eles existiram, mas que não resistiram à voragem do tempo, ou foram destruídos aquando da criação da freguesia de Portela do Fojo em 1795, uma vez que já não eram necessários, ou foram removidos para local incerto, ou aproveitados numa qualquer parede de um imóvel, ou até mesmo que os padrões não eram de pedra, mas de um material que pereceu pela erosão.

É uma mera teoria que a ninguém vincula.

Localização Geográfica

A aldeia de Padrões é uma das povoações que compõe a Freguesia de Portela do Fojo (rural de 2ª ordem), da qual dista sensivelmente 6 Km. Pertence, desde 1855, ao Concelho de Pampilhosa da Serra (rural de 3ª ordem), do qual dista sensivelmente 29 Km, e ao Distrito Administrativo de Coimbra desde 1835 (ano da sua criação). Faz parte da Província da Beira Baixa.

Eclesiasticamente, Padrões pertence à Paróquia de Nossa Senhora da Paz da Portela do Fojo, ao Arciprestado de Pampilhosa da Serra, à Região Pastoral Nordeste e à Diocese de Coimbra. Judicialmente faz parte da Comarca de Pampilhosa da Serra, do Distrito e Relação de Coimbra.

A povoação de Padrões integra ainda os lugares de Adega, Arroteia, Cabeço, Casal de Baixo, Casal de Cima, Ervedal e Quinta de Padrões. Os residentes permanentes não chegam ao número de 30. "É constituída por 41 habitações, sendo 4 rústicas, 22 reconstruídas e 15 novas".

Topografia

(imagem "MAPA_PADRÕES")

 

Padrões é a aldeia mais a Sul de todo o concelho da Pampilhosa e encontra-se, sensivelmente, a 394 metros acima do nível do mar. Posiciona-se à latitude 39º 57’ 0’’ e à longitude 8º 5’ 57’’. Confronta a Norte com o Rio Unhais, separando-a dos concelhos de Pedrógão Grande e de Góis; a Sul, separando-a dos concelhos de Sertã e de Oleiros; a Este confronta com a vizinha aldeia de Folgares. Por fim, a Oeste confronta com os rios Unhais e Zêzere. A aldeia situa-se na margem direita do Zêzere e a Sudoeste da sede da freguesia, à qual está ligada através do Caminho Municipal n.º 1372.

 

Esta povoação está inserida numa região de natureza montanhosa, num dos contrafortes da Serra da Estrela, onde predomina o terreno xistoso sendo, portanto, pouco fértil em termos agrícolas. Comparada, no entanto, com as aldeias vizinhas mais próximas (Folgares, Ribeiro do Soutelinho e Amoreira), Padrões tem a grande vantagem de não ser tão geograficamente acidentada como aquelas.

As espécies vegetais mais abundantes são a Carqueja, o Castanheiro, o Eucalipto, o Feto, a Lantisca, o Medronheiro, o Pinheiro-Bravo, o Tojo, o Trovisco e a Urze, entre outras. Entre as espécies animais encontramos a Abelha, a Aranha, a Barata, a Borboleta, o Caracol, o Coelho-Bravo, a Cobra, o Corvo, o Cuco, a Formiga, o Gafanhoto, o Grilo, o Javali, a Lavandeira, a Lesma, a Louva-a-Deus, a Osga, o Ouriço-Cacheiro, o Melro, o Morcego, a Mosca, o Pardal, a Perdiz, a Rã, a Raposa, o Rato, a Sardanisca e a Vespa, entre outras. Nos rios que desaguam a seus pés encontramos ainda o Achigã, o Barbo, a Boga, a Carpa, a Enguia e a Truta.

Economia

(foto "QUINTA_VISTA_GERAL")

 

À semelhança de tantas outras aldeias desta zona beira-serrana, a economia dos Padrões assentava ontem (muito) e ainda hoje assenta (cada vez menos) numa agricultura de subsistência.

Efectivamente, a topografia da aldeia, repetimos, quando comparada com as suas vizinhas, a isso se prestava, pois Padrões situa-se numa suave encosta junto aos rios Unhais e Zêzere. E a existência de uma quinta brasonada vem comprovar isso mesmo. Só numa terra aprazível e fértil é que a Nobreza se daria ao trabalho de mandar edificar tal imóvel.

Em tempos já idos, a quase totalidade das terras pertencia aos fidalgos da Quinta, os quais encarregavam o seu feitor da exploração agrícola da mesma. Nessa altura, os aldeãos encontravam ali o seu sustento, trabalhando em contrapartida de alimentação ou de géneros, funcionando assim a Quinta como centro empregador de toda a aldeia e até mesmo de povoações limítrofes. E este cenário manteve-se mesmo depois da fidalguia ter alienado a Quinta e as suas terras aos ascendentes dos actuais proprietários em finais do século XIX. Aliás, ainda hoje, ao passarmos em Padrões escutamos frequentemente os mais velhos recorrerem a expressões como "tu foste da Quinta" ou "eu fui criado na Quinta", quando se referem aos tempos de juventude (que na altura significava tão só trabalho).

Mas nem só de agricultores viviam os Padrões. Esta aldeia era igualmente bem conhecida pelos seus resineiros e carvoeiros (de ervedeiros e moitas), profissões hoje extintas pela sua inviabilidade económica.

Porém, a fraca rentabilidade das terras, aliada ao seu difícil amanho e à busca por melhores condições de vida através da imigração para fora dos limites da própria região, começaram a ditar, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, o abandono das terras que assistem, hoje, quase impávidas e serenas, ao avanço do mato, ou, em alternativa, à exploração do eucalipto nas encostas circundantes à povoação.

Mas enquanto os naturais do Trinhão, Amoreira e Folgares se notabilizaram principalmente pela sua inserção profissional na estiva do Porto de Lisboa ou no comércio, os habitantes de Padrões optaram por seguir um ramo de negócio mais castiço: a exploração de pistas de diversão e de carrosséis. E de facto, assim é. O visitante que se desloque a Padrões encontra nas suas imediações, com toda a probabilidade, camiões e atrelados que, quando chega a Páscoa ou a Primavera, partem para percorrer o país em busca do sustento de cada dia. Depois, por alturas da Senhora da Confiança, em Setembro, regressam às suas casas e aí, confidenciam-nos, "são como as formigas". Fazem a vindima, apanham a azeitona e cultivam a terra. Mas toda a "formiga" tem direito a gozar a vida, por isso, aquando da festa em honra da padroeira Nossa Senhora da Boa Memória, em fins de Novembro / princípios de Dezembro, a aldeia atinge o seu pico de habitantes. Mais tarde, recomeça o ciclo. E isto é de tal modo significativo que todo o ano só lá vivem umas 30 pessoas.

Quanto à indústria, esta praticamente não existe ou não se vê. O comércio é muito pequeno e familiar. É, pois, forçoso concluir que se trata de outra aldeia incapaz de gerar emprego. Uma solução parcial passaria, eventualmente, pelo investimento nas áreas da silvicultura e do turismo, mas infelizmente não se conhecem, até à data, planos ou investidores.

 

História

Antes de começar, nunca é demais lembrar o quão difícil é conhecer a história das pequenas povoações, sobretudo quando estão afastadas dos centros políticos, seja pela distância, seja pela geografia.

De acordo com o Dr. Cipriano Nunes Barata, as primeiras notícias referentes à aldeia em análise remontam ao início da nacionalidade, mais propriamente ao ano de 1219, altura em que foi outorgada uma "carta de convenção" entre o Mestre da Ordem do Templo (vulgarmente conhecidos por Templários) e dois casais "(...) pertencentes a João Soares, Soeiro Mendes, presumivelmente pai e filho e as respectivas consortes Teresa Gonçalves e Tota Gonçalves", relativa ao domínio de terras que, segundo crê aquele ilustre pampilhosense, se situavam nas imediações da aldeia de Padrões. Infelizmente aquele autor não indica a fonte documental de onde retira tal conclusão – único defeito, aliás, da sua excelente obra.

Outro documento que atesta a antiguidade desta povoação é a conhecida Carta de Foro Perpétuo da Herdade de Alváres, datada de Setembro de 1281, pela qual Martim Gonçalves e sua mulher Maria Viegas doaram ao Mosteiro de Folques (actualmente uma freguesia de Arganil), através de um foral, as terras que correspondem hoje, sensivelmente, às freguesias de Alváres e de Portela do Fojo. Saliente-se que daquele foral não se retiram elementos que nos permitam concluir que já existia uma aldeia ou sequer um casal no lugar hoje ocupado por Padrões – ao contrário do defendido pelo Dr. Cipriano Barata - mas tão só que as suas terras passavam a pertencer ao referido mosteiro.

Só volvidos 300 anos é que podemos afirmar que o lugar de Padrões já era povoado. As certezas resultam da leitura do foral manuelino de Alváres, outorgado em 04 de Maio de 1514, que, a dada altura, reza assim: "(...) e tem mais a ordem [o mosteiro de Folques] nesta terra huma terra foreira que chamam padrooens [Padrões] bem confromtada da quall se paga de todo pam e vinho domze tres emtramdo aquy o dizimo. E do linho pagasse domze dous e sam aquy dous casaaes somente. A saber. O que traz vasqueannes e paga delle de foro quattro alqueires e hum capam e hum carneiro. E pagam do azeite domze dous a Deus e ao senhorio. E o casal de pero fernandez paga do seu casal uma galinha E pagasse do azeite domze dous por dizimo e reçam."

Apesar de pequeno, este excerto do foral de Alváres contém valiosas informações sobre a aldeia de Padrões, a saber:

Apesar de parte das terras de Padrões serem propriedade do Mosteiro de Folques, a resolução dos seus problemas passava pelo município de Alváres, ao qual pertenceram até 1855. De facto, toda a área ocupada pelas actuais freguesias de Alváres e Portela do Fojo pertencia àquele mosteiro, o qual a havia arrendado ao município de Alváres, de acordo com a já referida Carta de Foro Perpétuo de 1281. Assim, os habitantes de Padrões entregavam as suas rendas à Câmara de Alváres, a qual, por sua vez, as entregava aos cónegos do mosteiro. De resto, a vida político-social deste território era determinada pela antiga Câmara Municipal de Alváres.

Outra notícia relevante para a história da aldeia de Padrões remonta a 29 de Janeiro de 1616, altura em que o Papa Paulo V autoriza que o Mosteiro de São Pedro de Folques anexe as suas rendas ao Colégio da Sapiência de Coimbra. Desta forma, as rendas pagas pelo concelho de Alváres, no qual Padrões se incluía, foram canalizadas, inicialmente para a construção e mais tarde para a manutenção, de um dos mais importantes colégios coimbrãos.

E eis que chegamos a 1795, ano da criação da freguesia de Nossa Senhora da Paz da Portela do Fojo, a qual os moradores de Padrões foram chamados a compor. José Anastácio de Figueiredo, em "Nova Malta", explica-nos porquê: "como também foi praticado com o Sr. Bispo Conde [Bispo de Coimbra e Conde de Arganil], na data de 20 de Janeiro de 1795, a respeito do Lugar dos Padrões, que tendo onze vizinhos, sempre seis delles pertenceram ao Priorado do Crato, e cinco ao Bispado de Coimbra, e á freguezia de Alváres, com as Povoações dos Folgares, Amoreiras, Indiozo, e Soutelinho, que distam da referida freguezia de Alváres mais de legoa e meia, mediando a grande Ribeira de Unhaes; em consequencia de S.A.R. [Sua Alteza Real, à data D. Maria I] ter mandado edificar huma nova Parochia na Portella (do Fojo), ou sitio do Villar d´Amoreira, para mais facil administração dos Sacramentos, e cõmodo espiritual daquelles Povos: a fim de que, dimittindo o dito Prelado a Jurisdicção Ecclesiastica, que tinha nas sobreditas Povoações, se passassem, como passou, as Ordens competentes ao Parocho da freguezia de S. Mattheus da Villa de Alváres, para se entenderem desmembrados della, e daquele Bispado (servindo-lhe de divisa a dita Ribeira de Unhaes) tanto aquelles 5 moradores do Lugar dos Padrões, como todos os mais referidos Lugares dos Folgares, Amoreiras, Indiozo, e Soutelinho. O que tudo ficou pertencendo á dita nova freguezia, Curato, que se mandou edificar, ou transmutar para o sitio da Portella do Fojo, entre os dous lugares do Villar, e Amoreiras: á qual foram obrigados a pertencer igualmente os moradores do Lugar do Trinhão, com a sua Ermida de N. Senhora da Paz, ainda em Março de 1796".

Da análise deste pequeno texto podemos concluir que:

Mas esta situação não durou muito tempo, pois em 1834 Joaquim António de Aguiar assina o Decreto de Extinção das Ordens Religiosas, acabando com o Mosteiro de Folques e o Priorado do Crato. Em consequência disso, os habitantes de Padrões deixaram de pagar as rendas ao Mosteiro e tornaram-se proprietários das terras que anteriormente arrendavam.

O ano de 1855 traz com ele mais uma importante mudança. Em 24 de Outubro desse ano é publicado um decreto que extingue diversos concelhos, com vista a reorganizar administrativamente o país. Entre esses concelhos encontrava-se o velho concelho de Alváres. Um mês depois, a Câmara Municipal de Alváres recebe o ofício do Governo Civil de Coimbra, dando-lhe conta de que o concelho é extinto, passando a freguesia de Alváres a integrar o concelho de Góis, e a freguesia de Portela do Fojo (Padrões incluído) a integrar o concelho de Pampilhosa da Serra, como tem sido até hoje.

Padrões passou, pois, a integrar um "novo" concelho, mas um dos seus velhos problemas mantinha-se: escassez de acessibilidades. Com efeito, a aldeia situa-se na ponta Sul da freguesia e do concelho, na foz dos rios Zêzere e Unhais e consideravelmente afastada de uma povoação que lhe possa fornecer os bens ou prestar os serviços de que necessita. E se hoje o problema foi relativamente minorado, o mesmo não tinha acontecido no ano de 1890. Disso nos dá conta o Dr. Manuel Maria Antão, ao transcrever na sua valiosa obra algumas petições da Junta de Paróquia (antecessora da actual Junta de Freguesia). Eis uma delas, dirigida a El-Rei D. Carlos: "Senhor. A Junta de Paróquia, Cônscia da justiça que lhe assiste, vem perante Vossa Majestade, pedir que lhe seja concedido um subsídio de 600.000 réis para a reedificação de uma ponte sobre o rio Unhais, no sítio do Porto dos Padrões, que as inundações de 1875 arrastaram nas suas correntes, achando-se os povos desta freguesia, desde aquela data, até à presente, privados de via por onde possam importar e exportar os artigos indispensáveis à vida. Senhor. Grandes e frequentes são os perigos e trabalhos que os habitantes desta freguesia, bem como os transeuntes que por aqui fazem caminho, pois que, numa extensão de 25 quilómetros deste mencionado Porto dos Padrões, não há ponte alguma que garanta passagem sem riscos de vida e perda de haveres. Este rio, Senhor, é bastante caudaloso e duma grande extensão e neste espaço, algumas vidas se terem perdido e alguns desastres se terem dado. Senhor! Esta freguesia bem como todo este concelho, são de uma extrema pobreza e com um grande gravame de contribuições (com o que já se acham muito onerados) não podiam empreender uma obra desta monta. É, Real Senhor, da maior equidade e justiça, e por isso confiamos em que Vossa Majestade, haja por bem atendê-la. Deus Guarde a preciosa vida de Vossa Majestade por dilatados anos."

Certo é que, infelizmente, tal petição, entre outras, não foi atendida. Aliás, só no final da década de 30 do século XX é que o projecto da ponte, no valor de 20.995$00, é aprovado. Para tanto contribuíram o Estado, as Câmaras Municipais de Pampilhosa e Pedrógão Grande e o próprio povo da freguesia. Oito meses depois a obra estava feita. "A ponte dos Padrões, cuja construção fora projectada em Madeira em 1934, era uma obra bem estudada por engenheiros especializados e segura para o trânsito de pessoas e carros de bois e ficaria sob a protecção do Governo, que comparticiparia das suas reparações sempre que o seu estado as exigisse."

Obra necessária, mas infelizmente de pouca dura, pois o fecho das comportas da Barragem do Cabril, junto de Pedrógão Grande, no início da década de 50, e a formação da actual albufeira alagaram grandes extensões de território, sepultando debaixo das águas do Zêzere e do Unhais a ponte dos Padrões.

Mas nem tudo foi negativo. Na opinião do malogrado Dr. Cipriano Nunes Barata "quanto a Padrões, podemos asseverar sem grande erro que a barragem do Cabril a beneficiou, tornando-a mais bela, do ponto de vista panorâmico, e talvez mais rica de bens materiais. Com efeito, a oliveira e o pinheiro são hoje [1974] as suas duas principais fontes de riqueza material e a razão fundamental da permanência dos seus moradores."

Infelizmente, passados quase 30 anos sobre este trecho de texto, constatamos que nem o pinheiro nem a oliveira conseguiram impedir a emigração da maioria dos habitantes de Padrões. Esperemos, pois, que a riqueza panorâmica que ainda permanece possa trazer de volta mais vida e desenvolvimento à aldeia.

Património

Cremos sinceramente que a aldeia de Padrões constitui a "jóia da coroa" de toda a freguesia, pois esta pequena povoação consegue reunir um conjunto interessante e único de património arquitectónico e natural. De facto, falar de Padrões é falar da sua Quinta brasonada e da sua Ilha.

Destacado do casario da aldeia, que se estende pela encosta, encontramos um imóvel que sobressai sobre as demais construções. Trata-se da famosa Quinta de Padrões, cuja antiguidade remonta ao início do século XVIII. Segundo estudo do Dr. Manuel Maria Antão, terá sido fundada por fidalgos de Coimbra, após doação das terras que ocupa pelo Prior do Crato, embora não a utilizassem como moradia permanente, mas apenas como "estância" de recreio, nomeadamente para a caça. Ainda de acordo com o mesmo autor, o seu proprietário inicial terá sido, a avaliar pelo brasão existente, "(...) D. Manuel José da Fonseca Barata, Fidalgo Cavaleiro da Casa Real e Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo (...)". Não podemos afirmar que seja um edifício de grande riqueza arquitectónica, pois não o é. Trata-se de um edifício austero, construído com o material da região (xisto e argila), razão pela qual necessita actualmente de obras de recuperação. No seu interior existem dependências mais recentes, o que a descaracteriza.

Mas é também no seu interior que encontramos a capela de Nossa Senhora da Memória. A primeira referência remonta a 1721, ano em que foi efectuado um inquérito paroquial pelo Bispado de Coimbra. Com efeito, o padre de Alváres, Pedro das Neves (nessa data ainda não existia a paróquia de Portela do Fojo), ao responder às perguntas enviadas pelo Bispado de Coimbra, dá conta, a 23 de Maio daquele ano, de que "nesta minha fregª hã treze Ermidas (...) a de N. S.ª da Memoria do lugar dos Padroens foy instituida por Snh. Luis Borges, q. foy morador no mesmo lugar..."

É curioso que aquele pároco não refere que a capela se encontrava na Quinta. Ter-se-á esquecido, ou omitiu esse facto propositadamente? E porque razão afirma que a capela foi criada por um tal Luís Borges, quando, aparentemente, o proprietário inicial da Quinta terá sido o fidalgo D. Manuel José da Fonseca Barata? Cremos que a resposta encontra-se numa lenda hoje quase esquecida. Dizem os mais velhos que inicialmente a capela em honra de Nossa Senhora da Memória não se encontrava no interior da Quinta, mas sim num terreno hoje conhecido como "Capela Velha". Mais tarde, e porque alguém tentou roubá-la por três ocasiões, a imagem foi dali levada para "dentro das Armas" (para o interior da Quinta), mas ao que parece a Santa não gostou da mudança e, por isso, tornava a voltar à sua antiga capela. Infelizmente a memória colectiva do povo de Padrões não consegue elucidar como é que "convenceram" a Santa a ficar no interior da Quinta de Padrões, mas o certo é que ela ficou lá por largo tempo até ser roubada, já em pleno século XX. Da capela inicial, afiançam, já não existem vestígios.

Certo, certo é que a capela existente na Quinta foi consagrada a Nossa Senhora da Memória. Trata-se de um pequeno templo barroco, com telhado de duas águas, construído em xisto e argila, e com um belo pórtico em granito encimado por uma cruz latina. Ao seu lado encontra-se uma dependência – sacristia (?) – construída com os mesmos materiais, com um telhado inclinado de uma água e um pequeno campanário encimado por uma cruz e bandeira, ambos em metal. O seu interior é igualmente belíssimo: possui um altar ricamente decorado, com talha dourada e apreciáveis pinturas. No centro encontramos a imagem do orago e a ladeá-la as imagens do Sagrado Coração de Jesus e de Santo António. Aparentam ser todas modernas. Na parede oposta ao altar está um curioso separador em teia de madeira, também ele ricamente ornamentado e pintado e que servia para os proprietários da Quinta assistirem à celebração religiosa sem que se misturassem com os demais fiéis. O visitante que se desloque a Padrões não dará, com toda a certeza, por mal empregue o seu tempo ao visitar esta belíssima capela. Todavia, é propriedade particular, pelo que deverá, antes de mais, contactar com os seus possuidores.

Ao sair da Quinta, poderá aproveitar e visitar outra capela, também ela dedicada à mesma padroeira – se bem que aqui a tenham "baptizado" de Nossa Senhora da Boa Memória. Trata-se de um templo de construção muito recente, inaugurado em 1997-03-22, formado por três corpos, em crescendo, bem distintos: assembleia, altar e torre sineira encimada por uma grande cruz latina. No interior encontram-se as imagens, todas modernas, de Nossa Senhora de Fátima, de São José com o Menino, de São Bento, de Santo António, do Sagrado Coração de Jesus e – claro – de Nossa Senhora da Boa Memória. A festa em sua honra ocorre no último fim de semana de Novembro.

Mas esta aldeia tem mais motivos para uma visita, designadamente a Ilha de Padrões, situada aos seus pés, em plena albufeira criada pela Barragem do Cabril nos idos anos 50 no século passado. É aqui que o Zêzere e o Unhais se unem, criando um belíssimo espelho de água cercado pelo xisto das margens e por encostas verdejantes, convidando o visitante à reflexão, ao lazer, à prática da pesca ou até aos desportos náuticos.

Infelizmente já não restam muitos exemplares de casas tradicionais de xisto. Aliás, a aldeia possui um grande número de casas recuperadas ou novas, o que atesta bem o sucesso alcançado pelos seus habitantes.

À entrada da povoação, numa das bermas do Caminho Municipal, encontram-se umas Alminhas, também elas modernas, mas que, segundo apurámos, foram construídas em substituição de umas mais antigas que não sobreviveram ao alargamento da via.

E porque a gastronomia também já ascendeu à categoria de património, o visitante que gozar da hospitalidade das gentes de Padrões poderá provar os pratos mais emblemáticos desta região da Beira Serra: a Chanfana, o Bucho, as Filhoses, o Pão-de-ló e a Broa de Milho, acompanhados pelo vinho morangueiro.

 

 

Etnografia

Muito haveria a descrever neste ponto, mas o tempo e o espaço obrigam a que sejamos breves. Assim sendo, daremos apenas conta de uma tradição que, cremos, já se perdeu: as Novenas. Cumpre desde já alertar que não se trata de uma tradição exclusiva dos moradores de Padrões, simplesmente a relembramos em virtude de ter como cenário a célebre Capela da Quinta dos Padrões.

Em tempos já idos, os habitantes da freguesia de Portela do Fojo, de uma maneira geral, faziam Novenas pelos Santos ou Santas de sua especial devoção. Tais Novenas consistiam em reunir nove pessoas (daí a designação "novena"), normalmente rapazes e raparigas, para em conjunto com as mesmas, pagar uma promessa que o devoto tinha feito ao seu Santo ou Santa quando se encontrava numa situação de particular aflição. Os destinos habituais eram Nossa Senhora da Paz na sede da freguesia, Nossa Senhora dos Aflitos no concelho de Pedrógão Grande e Nossa Senhora da Boa Memória na aldeia de Padrões. Esta última era muito solicitada, sobretudo pelas mães e pais que recorriam à graça desta invocação de Nossa Senhora no sentido de que os seus filhos conseguissem estudar melhor (tivessem boa memória) e/ou passassem para o ano escolar seguinte.

Assim, se Nossa Senhora da Memória atendesse as preces do devoto, este reunia mais nove pessoas e, todos juntos, partiam em direcção à velha capela da Quinta. O caminho era feito a pé (naquele tempo não havia estradas dignas daquele nome, muito menos automóveis) e em ambiente de recolhimento e de sossego. Uma vez ali chegados, rezavam o Terço e ofereciam-no à Santa.

Findo o cumprimento da promessa, nem por isso ficava o devoto isento de mais obrigações. É que tinha ainda de "pagar" ao grupo que o acompanhava. Tal era feito com a oferta de uma merenda de queijo, chouriças, carne cozida e broa. E se a viagem de ida era feita em jeito de recolhimento, já o regresso era feito em tom de festa e de baile pela graça alcançada e pelo convívio em si.

E isto, contam-nos, estava de tal modo enraizado nos naturais desta freguesia que não havia dificuldade em reunir nove pessoas. Aliás, o normal era partirem mais de nove pessoas, o que acontecia só depois do regresso dos jovens das campanhas na Borda d’ Água, pois quase durante todo o ano as aldeias ficavam semi-desertas.

António Amaro Rosa

A finalizar...

Terminamos este pequeno apontamento sobre a nobre aldeia de Padrões com um poema da autoria do Exmo. Sr. José Deus, datado de 2000, com que nos deparámos no Café Marques, sito na mesma aldeia. Infelizmente não pudemos contactar o seu autor, a fim de nos autorizar a sua divulgação, mas atendendo ao seu conteúdo e ao local onde se encontrava exposto, deduzimos que o mesmo não se oporá à sua inserção neste artigo. Aliás, em face de tal poema, quase não seria necessário o presente apontamento, pois em oito estrofes o Ilustre Poeta consegue dar a conhecer ao Leitor o lugar e a história de Padrões.

 

Hino "Padrões da Memória"
 
Entre as brumas da memória
Os Padrões têm a sua história
Entre oliveiras e pinhais
De nascente corre o rio Zêzere
De poente corre o rio Unhais
 
Olhando com os meus olhos
estou certo no que digo
a norte está a aldeia dos Folgares
e a sul a ilha do monte trigo
 
terra linda e maravilhosa
linda como a flor do tôjo
fundada pelos condes de Coimbra
pertence ao concelho da Pampilhosa
e à freguesia da Portela do Fôjo
 
situa-se numa superfície planalta
onde se dá bem a toda a malta
todos aí reinam em glória
porque é sua padroeira
a Senhora da Boa Memória
 
de beleza natural
que bela é esta terra
fica no cordão umbilical
da estrela... Madre Serra...
 
foi terra de carvoeiros
resineiros, professores
agricultores e alguns doutores
 
hoje é terra de emigrantes
e feirantes... de pistas e carrosséis
esta terra é a terra de muitos Manéis
 
a terminar esta história
desejo saúde e boa memória
para todos os amigos meus
pois isto.. é obra de "Deus"!
 
 
Notas / bibliografia:

Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram / Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo - ed. crítica por Mário Fiúza; 2 vols.; Porto; Civilização, 1983-1984;

2 Nova História da Militar Ordem de Malta e dos Senhores Grão-Priores della em Portugal / José Anastácio de Figueiredo; Lisboa; 1800; Officina de Simão Thaddeo Ferreira;

3 Forais Manuelinos do reino de Portugal e do Algarve / Luiz Fernando de Carvalho Dias; 1º vol. Beira; 1961;

4 Terras portuguesas: arquivo histórico-corográfico ou corografia histórica portuguesa / Francisco Nunes Franclim, Baptista de Lima; Tip. Camões-Editora; 1932;

5 Dicionário corográfico de Portugal Continental e Insular / Américo Costa; Porto; Civilização; 1929-1949;

6 www.diocesedecoimbra.pt;

7 Mapa da Divisão Judicial / Direcção-Geral da Administração da Justiça - Ministério da Justiça; 2002;

8 Carta Militar de Portugal nº 265 - Folha 277 (escala 1/25.000) / Instituto Geográfico do Exército; 1993;

9 Património Pampilhosense / Coord. Dr. António Lourenço; Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra; 2002;

10 Carta Militar de Portugal nº 265...;

11 www.cnig.pt;

12 Carta Militar de Portugal nº 265...;

13 Dicionário corográfico de Portugal Continental e Insular...;

14 Memórias de um velho regionalista / Cipriano Nunes Barata; Lisboa; Tip. Silvas; 1974; Separata Comunidades Portuguesas;

15 Terras portuguesas...;

16 Arquivo histórico de Gois: revista de história, etnografia e regionalismo do Concelho de Gois / Mário Paredes Ramos - Torres Vedras; 1956-1971; reedição da C.M. de Góis;

17 obra citada. O negrito é do Autor;

18 www.monumentos.pt;

19 Nova História da Militar Ordem de Malta...;

20 Memória acerca da Vila de Alvares / Anselmo dos Santos Ferreira; 1ª edição; 1955;

21 Portela do Fojo: a sua história, os seus problemas / Dr. Manuel Maria Antão; 2001;

22 obra citada;

23 Memórias de um velho regionalista...;

24 Património Pampilhosense...;

25 Memória acerca da Vila de Alvares...;

  • Carta corográfica de Portugal n.º 24-A – folha M 7810 (escala 1/50.000) / Instituto Geográfico e Cadastral; edição 2 IGCP; 1982 (?);
  • Recolhas/ Depoimentos;
  • Memórias do Autor.

Fotos e imagens:

Do espólio do Autor, com excepção da foto a preto e branco da antiga Ponte de Padrões, da foto aérea da Ilha de Padrões e do excerto do mapa do IPCC.

Agradecimentos:

Ao possuidores da Quinta dos Padrões, que gentilmente nos deram o privilégio de a conhecer;

Ao Povo de Padrões.

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